quinta-feira, 18 de abril de 2013

A Bahia é linda

Trabalhava em um escritório na mais baixa função que um contrato de trabalho cheio de parágrafos pode proporcionar. Algo um pouco acima de estagiário e um pouco abaixo de auxiliar de serviços gerais. Saía às 5 da manhã e, graças ao trânsito engarrafado e o metrô enlatado, passava 14 horas entre querer chegar ao e sair do trabalho o mais rápido possível. Não havia diversão. Não havia sentido desde que passava pela porta mal cuidada da sua casa até retornar a ela.
Seus amigos de trabalho - o chefe obrigava todos a se chamarem de amigos- estavam sempre concentrados ao computador como em transe. Nesses cinco anos, é possível que metade ali não soubesse de sua existência.
Um dia, na volta para casa, entre as muitas pessoas que corriam do trabalho para casa, recebeu um panfleto de viagem. Lia-se em letras alegres e cantantes: "Conheça a Bahia!" Abaixo, a foto de uma praia sorridente com areia dourada queria lhe dar um abraço quente.
Ao passar o dedo por aquele pedaço de papel brilhante abriu um sorriso abobalhado. Sua vida nunca teve propósito. Agora tinha. Desde cedo aprendeu que era preciso trabalhar - era preciso estudar também, mas trabalhar era mais preciso do que todo o resto - e que um dia teriam uma casa para comandar e uma família para amparar, aí teria que trabalhar mais duro que nunca.
Fez e refez cálculos e chegou à conclusão que seria possível fazer tão utópica viagem nas próximas férias, no fim do ano. Já há algum tempo juntava um dinheiro.
Toda vez que saía de casa levava o panfleto e admirava aquela paisagem com carinho antes de colocá-lo no bolso afetuosamente. Quanto mais arrancava as páginas do calendário, mais rápido corriam as horas ao encontro do grande dia. Voavam em uma única direção: para Bahia. Com o tempo, percebia mais detalhes naquele simples papelzinho que parecia conter toda a magia de um Estado inteiro. Um dia percebeu coqueiros, quase que escondidos no canto inferior. Em outro, descobriu um um guarda-sol, pequenino na visão panorâmica. Já se imaginava sentado sob sua sombra gentil, com um coco na mão. Cada vez que descia pelas ruas apalpava o bolso que guardava seus sonho afetuosamente.
Cada transtorno, do chefe, do trânsito, da namorada, tinha resposta no papel reluzente da praia de coqueiros.
Finalmente, saiu de casa pela primeira vez realmente feliz em fazê-lo, marchando rumo ao seu último dia de trabalho que seguiria as férias. Apanhou ritualmente a foto já amssada e sem luz no bolso da calça e seguiu distraído pelo asfalto.
Um filho da puta qualquer, em disparada em um carro potente e majestoso, retornando embriagado de uma dessas reuniões de filhos da puta quaisquer que atravessam a noite, cochilou ao volante no momento em que os trabalhadores mais trabalhadores atravessavam a faixa de pedestre. O carro chocou-se violentamente com um jovem absorto em sonhos e praias paradisíacas. A visão turva do corpo estirado no asfalto, lançado a mais de 10 metros, conseguia distinguir somente no papel amassado a praia que soprava calorosamente seus cabelos ensanguentados. A Bahia... a Bahia é linda.

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