segunda-feira, 6 de maio de 2013

Espelho

Eu podia ser qualquer coisa.
Eu podia ser tudo o que eu quisesse.

Eu podia ser um atleta. Não. Eu podia ser o melhor atleta de todos os tempos. Correr 100 metros na velocidade da luz. Os flashes pipocariam quase sem tempo de me ver cruzar a pista. Bateria todos os recordes como quem bate ovos.

Eu podia ser um jogador de futebol. Eu podia ser o maior jogador de futebol de todos. Quando eu morresse meu nome batizaria o maior estádio do mundo. As réplicas da minha chuteira seria comprada sem sair de moda nunca. Meus gols estariam sempre em reprise. Eterno.

Eu podia ser um jóquei. Eu e meu cavalo ganharíamos todas as corridas. Um páreo difícil sempre ficando para trás nos metros finais. A cabeça do cavalo cruzando a linha branca, quase em desdém. Os apostadores vibrando com minha vitória já certa. Os azarões lamentando ter ido contra mim novamente.

Eu podia ser um executivo. Não qualquer executivo, mas o mais reconhecido entre os executivos de sucesso. Meu terno impecável seria apenas um detalhe entre minhas decisões impecáveis de negócio. Em um ano faria a empresa alcançar lucro tão exorbitante que os ossos do velho fundador reviraria na cova de tanto orgulho.

Eu podia ser um pai exemplar. Eu podia ser um marido perfeito. Levaria flores e o café da manhã na cama para minha amada antes que o despertador ousasse em se proclamar. Falaria 'eu te amo' nos momentos mais inesperados. Nos mais esperados também. Ensinaria minha filha a ler e entraria com ela na escolinha no seu primeiro dia de aula. Um dia, já velho, ela me confessaria que eu sempre fui seu melhor amigo.

Eu podia ser tudo,
mas tudo que sou é um reflexo no espelho.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Amará, adorá, aflorá

Quando o sol se for
há mar há
Quando a lua voltar
há mar há

Na tarde quente de amor
há mar há
No mais frio luar
há mar há

No mais triste torpor
há dor há
No lar a despedaçar
há dor há

No luto sem fim
há flor há
Na dança sem par
há flor há






Azul da cor do mar

Quando meu pai me levou ao clube eu era bem novo. Uma torre que alcançava as nuvens repleta de trampolins que subiam e subiam estava bem ao centro. A piscina de extensão a perder de vista, para mim, era maior do que o mar. Eu nunca havia visto o mar de tão perto, mas o mar devia ser mesmo muito pequeno para caber em uma televisão. 
Ao dia ensolarado logo meu pai me soltou e corri ansioso na direção daquele novo mundo. Muitas pessoas transitavam freneticamente pela borda da grande piscina. Outras apenas deitavam sob o sol. Dentro da piscina as pessoas estavam realmente felizes. Algumas até eufóricas. Apenas algumas pessoas podiam ser vista com certa tristeza, o que lembrava minha professora de matemática. Vez por outra alguém pulava de um dos trampolins e ia fundo na piscina.  Eu realmente era muito novo, então tratei de brincar com as crianças que encontrei pelo caminho ao invés de me arriscar na piscina que era muito funda, especialmente para mim.
Mais velho, já me sentia confiante o suficiente para me arriscar na beira da piscina e nos trampolins mais baixos, entretanto não o bastante para entrar na piscina. Conheci alguns adolescentes em algazarra costumaz pulando de mãos dadas e saindo da piscina só para retornar com mais alvoroço. Caía água para todo lado. Então conheci Laura. E depois Luísa. Raquel. Ana. E muitas outras. A essa altura não me interessava o resto do clube, só me interessava o meu grupo de adolescentes. Nós nos divertíamos muito, sempre compartilhando novas experiências. De qualquer forma, não quis me arriscar em pular na piscina com nenhuma delas. Laura, a menina a qual eu dei atenção primeiramente me disse que pularíamos na piscina e nossa vida seria sempre feliz. Sempre juntos naquele eterno momento alegre. Foi só aí que eu percebi em um relance que muitos que saíam da piscina estavam por um momento arrasados. Não era só água que escorria pelo corpo, havia também lágrimas. Porém, mais que depressa encontravam outros parceiros e juntos se iam para o fundo.
Dessa vez eu já estava me arriscando no trampolim. Estava mais sério, mais alto e mais forte. Eu nunca havia entrado naquela piscina. Algo nela simplesmente me assustava a alma. Por outro lado, o medo me atraía a tentar. Agora, entretanto, estava decidido a fazer um belo salto. Dessa vez conheci Mariana. Ela estava exatamente atrás de mim vislumbrando a piscina e as pessoas. Ela também me parecia séria e temerosa, porém decidida. Encontrei nela o motivo que faltava em mim para pular de uma só vez. Estávamos lado a lado na borda do trampolim. Eu estava muito nervoso. Demos a mão. Parecia o momento certo. Eu fechei os olhos com toda a força que tinha e tensionei os joelhos. Estava preparado. No momento derradeiro, Mariana largou a minha mão e fugiu chorando dizendo que não estava preparada.
Fiquei muito tempo sem retornar ao clube. Aquela experiência de quase ter pulado de cabeça na piscina me deixou muito apreensivo. Me distraí com muitas outras coisas mais a partir de então. De volta ao clube, conheci uma infinidade de pessoas mais, porém, sem me aproximar da água. Passei momentos dos mais variados com as pessoas que conheci lá. Meu lugar preferido se tornara o bar, que já há muito tempo que me era permitido frequentar, e que até então, contudo, não havia prezado. Eu já estava maduro e era lá agora que encontrava os meus pares. Contavam histórias pitorescas e excitantes, e vez por outra mencionavam aquela água morna da piscina que estava logo ali. Algum tempo depois, finalmente recuperado do choque de ter chegado tão perto de pular na piscina, decidi novamente subir as escadas que davam acesso aos trampolins. Dessa vez, rumei para o mais alto. Podia sentir o vento suave enquanto percorria o longo percurso na escada fina. Ao chegar lá me deparei com uma mulher de traços firmes. De lá de cima pude contemplar cada detalhe de todo o clube. Pude ver como as pessoas eram pequeninas lá embaixo. Bebês, adultos, crianças, adolescentes, velhos. Todos pequenas formigas que transitavam sem por quê.
Ao me aproximar dela, ela me confessou que nunca havia saltado daquela altura e que estava com muito medo. Sem hesitar, tomei a mão dela levando-a para borda e disse apenas para que tivesse coragem e que confiasse em mim. Era Mariana, mais velha e mais séria, mas sem perder a beleza. Ela sorriu e nos preparamos para o salto. Dessa vez eu não tinha dúvida alguma. Tensionamos lentamente o joelho e ela sorriu nervosamente para mim. Ao encontrar meu rosto decidido ela não teve dúvidas e voltou a ter traços firmes.
No ato do salto, num grito confesso, disse a ela que jamais havia saltado também.
Mariana, meu primeiro e único amor.


quinta-feira, 18 de abril de 2013

A Bahia é linda

Trabalhava em um escritório na mais baixa função que um contrato de trabalho cheio de parágrafos pode proporcionar. Algo um pouco acima de estagiário e um pouco abaixo de auxiliar de serviços gerais. Saía às 5 da manhã e, graças ao trânsito engarrafado e o metrô enlatado, passava 14 horas entre querer chegar ao e sair do trabalho o mais rápido possível. Não havia diversão. Não havia sentido desde que passava pela porta mal cuidada da sua casa até retornar a ela.
Seus amigos de trabalho - o chefe obrigava todos a se chamarem de amigos- estavam sempre concentrados ao computador como em transe. Nesses cinco anos, é possível que metade ali não soubesse de sua existência.
Um dia, na volta para casa, entre as muitas pessoas que corriam do trabalho para casa, recebeu um panfleto de viagem. Lia-se em letras alegres e cantantes: "Conheça a Bahia!" Abaixo, a foto de uma praia sorridente com areia dourada queria lhe dar um abraço quente.
Ao passar o dedo por aquele pedaço de papel brilhante abriu um sorriso abobalhado. Sua vida nunca teve propósito. Agora tinha. Desde cedo aprendeu que era preciso trabalhar - era preciso estudar também, mas trabalhar era mais preciso do que todo o resto - e que um dia teriam uma casa para comandar e uma família para amparar, aí teria que trabalhar mais duro que nunca.
Fez e refez cálculos e chegou à conclusão que seria possível fazer tão utópica viagem nas próximas férias, no fim do ano. Já há algum tempo juntava um dinheiro.
Toda vez que saía de casa levava o panfleto e admirava aquela paisagem com carinho antes de colocá-lo no bolso afetuosamente. Quanto mais arrancava as páginas do calendário, mais rápido corriam as horas ao encontro do grande dia. Voavam em uma única direção: para Bahia. Com o tempo, percebia mais detalhes naquele simples papelzinho que parecia conter toda a magia de um Estado inteiro. Um dia percebeu coqueiros, quase que escondidos no canto inferior. Em outro, descobriu um um guarda-sol, pequenino na visão panorâmica. Já se imaginava sentado sob sua sombra gentil, com um coco na mão. Cada vez que descia pelas ruas apalpava o bolso que guardava seus sonho afetuosamente.
Cada transtorno, do chefe, do trânsito, da namorada, tinha resposta no papel reluzente da praia de coqueiros.
Finalmente, saiu de casa pela primeira vez realmente feliz em fazê-lo, marchando rumo ao seu último dia de trabalho que seguiria as férias. Apanhou ritualmente a foto já amssada e sem luz no bolso da calça e seguiu distraído pelo asfalto.
Um filho da puta qualquer, em disparada em um carro potente e majestoso, retornando embriagado de uma dessas reuniões de filhos da puta quaisquer que atravessam a noite, cochilou ao volante no momento em que os trabalhadores mais trabalhadores atravessavam a faixa de pedestre. O carro chocou-se violentamente com um jovem absorto em sonhos e praias paradisíacas. A visão turva do corpo estirado no asfalto, lançado a mais de 10 metros, conseguia distinguir somente no papel amassado a praia que soprava calorosamente seus cabelos ensanguentados. A Bahia... a Bahia é linda.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Na casa pequena e humilde, lotada, cuidava dos irmãos menores e da mãe. Só via o pai durante o expediente, nas obras e nos pequenos reparos, pedreiro que era. Depois disso, seu pai se acabava no copo de cachaça e se perdia durante a noite, largando a família à própria sorte. Mal nutridos, humilhados, desesperançosos, estava sempre com um olhar perdido, a cabeça baixa. Das surras que seu pai lhe dava aprendeu a nunca levantar a cabeça. Entretanto, seus quase dois metros de altura não deixava que isso fosse um problema.
Assim, cabeça sempre baixa, despertou o interesse pelos livros, de modo que sempre estava com um na mão. Assim, cabeça sempre baixa, ia erguendo construção, preparando cimento, carregando tijolo. Assim, cabeça baixa, viu seu pai arrastando-se na porta de casa ferido mortalmente à faca.
Agora, ele homem da casa, tinha que prover a família, o que em verdade se mostrou mais fácil sem as garrafas sugando-lhes o dinheiro. O tempo passou vagaroso - livro, cimento, família; livro, construção, família; livro. Não demorou muito, lá estava ele, cabeça baixa a olhar a lista em que figurava em 1º lugar no vestibular de engenharia civil na melhor universidade da cidade.

Na maternidade, a recém-nascida mais bela daquele dia, sentia o mundo. Seu pai, herdeiro de um grande conglomerado de empreiteiras, viu nos olhos da pequena a maior alegria que já havia vivenciado. Ainda no primeiro mês de vida, ganhara uma pulseira de ouro com uma pedra de diamante. Daí em diante, sua pele nunca mais esteve longe do contato com pedras precisosas. Filha única que era, cresceu em meio a mimos, desenvolvendo beleza, arrogância e egoísmo. Seu nariz estava sempre empinado, nunca olhando ninguém nos olhos.
Assim, nariz sempre empinado, estudou nas melhores escolas, teve os melhores professores. Assim, nariz sempre empinado, esnobou tantos e partiu coração de muitos. Assim, nariz sempre empinado, viu a queda do monomotor que o pai pilotava nos fins de semana.
Sozinha com a mãe, se via perdida, sem a alegria e a mão pesada que lhe afagava com tanto carinho. O tempo passou pesaroso - jóias, colares, lágrimas; jóias, lágrimas, viagens; lágrimas. Como não havia de ser diferente, saiu da melhor escola para a melhor universidade da cidade, nunca lhe interessou posições, pois já ocupava a mais alta na que julgava mais importante, a social.

Um dia, no corredor, entre uma aula e outra, a cabeça baixa e o nariz empinado encontraram sua contrapartida. Seus olhos finalmente encontraram o fundo dos olhos de alguém.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Ana e Ralf

Ana nunca pensou que iria amar alguém tão intensamente quanto amara Ralf.
Quando Ralf se foi, todos ficaram extremamente preocupados como Ana ficara abalada, mal sabiam como reagir. Ela repetia pelos cantos, cabisbaixa, como havia sido o dia em que o conheceu. Por um momento seus olhos brilhavam, n'outro ameaçavam desabar qual cachoeira.
Desde o primeiro dia, não havia um dia sequer em que eles haviam se separado. Nos dias mais felizes e tristes da vida de Ana, Ralf estava sempre ao seu lado. Eles se amavam, feitos um para o outro.
Ana não conseguia entender porque tiraram a vida de Ralf assim tão covardemente. Porque ele havia a deixado para trás. Ele e ela ainda tão novo, uma vida inteira pela frente. A dor era muito forte, ela não sabia se iria suportar.
Havia passado dois meses desde o acidente. Hoje era o aniversário de Ana. Seus pais acordam mais preocupados do que de costume, preparam uma festa e compram um grande presente para tentar amenizar a dor da pobrezinha.
Hoje Ana estava decidida a não se deixar abalar.
Hoje Ana faz 10 anos. Ralf, seu presente do aniversário anterior, completaria 1 ano.