Eu podia ser qualquer coisa.
Eu podia ser tudo o que eu quisesse.
Eu podia ser um atleta. Não. Eu podia ser o melhor atleta de todos os tempos. Correr 100 metros na velocidade da luz. Os flashes pipocariam quase sem tempo de me ver cruzar a pista. Bateria todos os recordes como quem bate ovos.
Eu podia ser um jogador de futebol. Eu podia ser o maior jogador de futebol de todos. Quando eu morresse meu nome batizaria o maior estádio do mundo. As réplicas da minha chuteira seria comprada sem sair de moda nunca. Meus gols estariam sempre em reprise. Eterno.
Eu podia ser um jóquei. Eu e meu cavalo ganharíamos todas as corridas. Um páreo difícil sempre ficando para trás nos metros finais. A cabeça do cavalo cruzando a linha branca, quase em desdém. Os apostadores vibrando com minha vitória já certa. Os azarões lamentando ter ido contra mim novamente.
Eu podia ser um executivo. Não qualquer executivo, mas o mais reconhecido entre os executivos de sucesso. Meu terno impecável seria apenas um detalhe entre minhas decisões impecáveis de negócio. Em um ano faria a empresa alcançar lucro tão exorbitante que os ossos do velho fundador reviraria na cova de tanto orgulho.
Eu podia ser um pai exemplar. Eu podia ser um marido perfeito. Levaria flores e o café da manhã na cama para minha amada antes que o despertador ousasse em se proclamar. Falaria 'eu te amo' nos momentos mais inesperados. Nos mais esperados também. Ensinaria minha filha a ler e entraria com ela na escolinha no seu primeiro dia de aula. Um dia, já velho, ela me confessaria que eu sempre fui seu melhor amigo.
Eu podia ser tudo,
mas tudo que sou é um reflexo no espelho.