sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Na casa pequena e humilde, lotada, cuidava dos irmãos menores e da mãe. Só via o pai durante o expediente, nas obras e nos pequenos reparos, pedreiro que era. Depois disso, seu pai se acabava no copo de cachaça e se perdia durante a noite, largando a família à própria sorte. Mal nutridos, humilhados, desesperançosos, estava sempre com um olhar perdido, a cabeça baixa. Das surras que seu pai lhe dava aprendeu a nunca levantar a cabeça. Entretanto, seus quase dois metros de altura não deixava que isso fosse um problema.
Assim, cabeça sempre baixa, despertou o interesse pelos livros, de modo que sempre estava com um na mão. Assim, cabeça sempre baixa, ia erguendo construção, preparando cimento, carregando tijolo. Assim, cabeça baixa, viu seu pai arrastando-se na porta de casa ferido mortalmente à faca.
Agora, ele homem da casa, tinha que prover a família, o que em verdade se mostrou mais fácil sem as garrafas sugando-lhes o dinheiro. O tempo passou vagaroso - livro, cimento, família; livro, construção, família; livro. Não demorou muito, lá estava ele, cabeça baixa a olhar a lista em que figurava em 1º lugar no vestibular de engenharia civil na melhor universidade da cidade.

Na maternidade, a recém-nascida mais bela daquele dia, sentia o mundo. Seu pai, herdeiro de um grande conglomerado de empreiteiras, viu nos olhos da pequena a maior alegria que já havia vivenciado. Ainda no primeiro mês de vida, ganhara uma pulseira de ouro com uma pedra de diamante. Daí em diante, sua pele nunca mais esteve longe do contato com pedras precisosas. Filha única que era, cresceu em meio a mimos, desenvolvendo beleza, arrogância e egoísmo. Seu nariz estava sempre empinado, nunca olhando ninguém nos olhos.
Assim, nariz sempre empinado, estudou nas melhores escolas, teve os melhores professores. Assim, nariz sempre empinado, esnobou tantos e partiu coração de muitos. Assim, nariz sempre empinado, viu a queda do monomotor que o pai pilotava nos fins de semana.
Sozinha com a mãe, se via perdida, sem a alegria e a mão pesada que lhe afagava com tanto carinho. O tempo passou pesaroso - jóias, colares, lágrimas; jóias, lágrimas, viagens; lágrimas. Como não havia de ser diferente, saiu da melhor escola para a melhor universidade da cidade, nunca lhe interessou posições, pois já ocupava a mais alta na que julgava mais importante, a social.

Um dia, no corredor, entre uma aula e outra, a cabeça baixa e o nariz empinado encontraram sua contrapartida. Seus olhos finalmente encontraram o fundo dos olhos de alguém.

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