terça-feira, 30 de abril de 2013

Azul da cor do mar

Quando meu pai me levou ao clube eu era bem novo. Uma torre que alcançava as nuvens repleta de trampolins que subiam e subiam estava bem ao centro. A piscina de extensão a perder de vista, para mim, era maior do que o mar. Eu nunca havia visto o mar de tão perto, mas o mar devia ser mesmo muito pequeno para caber em uma televisão. 
Ao dia ensolarado logo meu pai me soltou e corri ansioso na direção daquele novo mundo. Muitas pessoas transitavam freneticamente pela borda da grande piscina. Outras apenas deitavam sob o sol. Dentro da piscina as pessoas estavam realmente felizes. Algumas até eufóricas. Apenas algumas pessoas podiam ser vista com certa tristeza, o que lembrava minha professora de matemática. Vez por outra alguém pulava de um dos trampolins e ia fundo na piscina.  Eu realmente era muito novo, então tratei de brincar com as crianças que encontrei pelo caminho ao invés de me arriscar na piscina que era muito funda, especialmente para mim.
Mais velho, já me sentia confiante o suficiente para me arriscar na beira da piscina e nos trampolins mais baixos, entretanto não o bastante para entrar na piscina. Conheci alguns adolescentes em algazarra costumaz pulando de mãos dadas e saindo da piscina só para retornar com mais alvoroço. Caía água para todo lado. Então conheci Laura. E depois Luísa. Raquel. Ana. E muitas outras. A essa altura não me interessava o resto do clube, só me interessava o meu grupo de adolescentes. Nós nos divertíamos muito, sempre compartilhando novas experiências. De qualquer forma, não quis me arriscar em pular na piscina com nenhuma delas. Laura, a menina a qual eu dei atenção primeiramente me disse que pularíamos na piscina e nossa vida seria sempre feliz. Sempre juntos naquele eterno momento alegre. Foi só aí que eu percebi em um relance que muitos que saíam da piscina estavam por um momento arrasados. Não era só água que escorria pelo corpo, havia também lágrimas. Porém, mais que depressa encontravam outros parceiros e juntos se iam para o fundo.
Dessa vez eu já estava me arriscando no trampolim. Estava mais sério, mais alto e mais forte. Eu nunca havia entrado naquela piscina. Algo nela simplesmente me assustava a alma. Por outro lado, o medo me atraía a tentar. Agora, entretanto, estava decidido a fazer um belo salto. Dessa vez conheci Mariana. Ela estava exatamente atrás de mim vislumbrando a piscina e as pessoas. Ela também me parecia séria e temerosa, porém decidida. Encontrei nela o motivo que faltava em mim para pular de uma só vez. Estávamos lado a lado na borda do trampolim. Eu estava muito nervoso. Demos a mão. Parecia o momento certo. Eu fechei os olhos com toda a força que tinha e tensionei os joelhos. Estava preparado. No momento derradeiro, Mariana largou a minha mão e fugiu chorando dizendo que não estava preparada.
Fiquei muito tempo sem retornar ao clube. Aquela experiência de quase ter pulado de cabeça na piscina me deixou muito apreensivo. Me distraí com muitas outras coisas mais a partir de então. De volta ao clube, conheci uma infinidade de pessoas mais, porém, sem me aproximar da água. Passei momentos dos mais variados com as pessoas que conheci lá. Meu lugar preferido se tornara o bar, que já há muito tempo que me era permitido frequentar, e que até então, contudo, não havia prezado. Eu já estava maduro e era lá agora que encontrava os meus pares. Contavam histórias pitorescas e excitantes, e vez por outra mencionavam aquela água morna da piscina que estava logo ali. Algum tempo depois, finalmente recuperado do choque de ter chegado tão perto de pular na piscina, decidi novamente subir as escadas que davam acesso aos trampolins. Dessa vez, rumei para o mais alto. Podia sentir o vento suave enquanto percorria o longo percurso na escada fina. Ao chegar lá me deparei com uma mulher de traços firmes. De lá de cima pude contemplar cada detalhe de todo o clube. Pude ver como as pessoas eram pequeninas lá embaixo. Bebês, adultos, crianças, adolescentes, velhos. Todos pequenas formigas que transitavam sem por quê.
Ao me aproximar dela, ela me confessou que nunca havia saltado daquela altura e que estava com muito medo. Sem hesitar, tomei a mão dela levando-a para borda e disse apenas para que tivesse coragem e que confiasse em mim. Era Mariana, mais velha e mais séria, mas sem perder a beleza. Ela sorriu e nos preparamos para o salto. Dessa vez eu não tinha dúvida alguma. Tensionamos lentamente o joelho e ela sorriu nervosamente para mim. Ao encontrar meu rosto decidido ela não teve dúvidas e voltou a ter traços firmes.
No ato do salto, num grito confesso, disse a ela que jamais havia saltado também.
Mariana, meu primeiro e único amor.


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